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Um dos conceitos mais interessantes que tive o prazer de ensinar na disciplina desenvolvimento e inovação de minha turma recente do MBA, é o do “Possível adjacente“. O conceito como você vai ver é absolutamente simples, muito esclarecedor e pode ser aplicado em uma infinidade de campos de estudo.

Imagine que você chega em casa, com fome, abre a geladeira e encontra algumas sobras de comida. Geralmente você as combina com algum item feito na hora, o resultado que você irá degustar esta noite será o seu possível adjacente alimentar.

Em linhas gerais, você construiu sua grande obra culinária a partir dos restos de outras gloriosas refeições do passado, e fez o melhor possível a partir do que dispunha (adjacente), e pode até ter produzido algo novo e saboroso.

O biólogo Stuart Kauffman (2016) cunhou o termo “possível adjacente” para dar suporte a sua visão da teoria evolutiva das espécies. Para Kauffman, qualquer ser vivo é um agente autônomo, que no caos evolutivo se desenvolve a partir dos recursos adjacentes. Ele cita o exemplo de que a vida na terra não seria possível, se na sopa química dos inícios dos tempos, não houvesse o carbono. O carbono é o elemento químico altamente agregador, que aliado a outros elementos instáveis e estáveis produziu um ser vivo, ou agente autônomo.

A teoria de Kauffman abre espaço para ser aplicada em outros campos, por exemplo, no processo cognitivo, construímos nosso saber interpretando novas informações, e produzindo conhecimento, a partir da combinação com o possível adjacente dos conhecimentos que possuíamos anteriormente.

Possível Adjacente

No campo da inovação, o possível adjacente significa dizer que qualquer inovação é produzida a partir dos possíveis adjacentes, isto significa que nada é criado por epifania, e sim a partir da informação, da observação e do conhecimento.

Este conceito dialoga perfeitamente com Scott Berkun, que em seu livro “The Myths of Innovation” desmonta o conceito da inovação por epifania. Pela ótica de Berkun, Isaac Newton não teceu toda teoria da gravidade quando a maçã caiu sobre sua cabeça, na verdade este fato é uma romantização da ciência. Se este evento realmente aconteceu, a queda da maçã foi apenas a última peça do quebra cabeças.

Reprodução, BERKUN, 2007, p.9

O quebra cabeças é uma boa metáfora para o conceito do possível adjacente. Cada peça representa o surgimento de uma tecnologia, evento ou informação adjacente, que quando combinados produzem a inovação.

No meu artigo, “Uma perspectiva histórica e sistêmica do capitalismo de vigilância”, que foi publicado na edição 41 da revista Inteligência Empresarial, eu elenco uma série de fatos e desenvolvimentos tecnológicos, e na página 11 faço uma observação que demonstra claramente o possível adjacente:

É interessante observar o quanto o desenvolvimento tecnológico permitiu novas práticas de desenho e desenvolvimento para a Internet, aplicações em AJAX não teriam como funcionar nos computadores de 1996, os padrões de Internet (Web Standards) não teriam se tornado tão populares se a Guerra dos Navegadores não tivesse criado tantos transtornos.

O caso dos smartphones no Brasil mostra que a resposta do mercado é importante, com 5% da população Brasileira com smartphone em 2009, aplicações que fazem uso da mobilidade não teriam economia de escala para subsistirem. Com a penetração próxima dos 90%, eles se tornaram a principal ferramenta auxiliar do capitalismo de vigilância (CARIBÉ, 2019).

A compreensão do conceito de possível adjacente, nos leva a concluir, as premissas para a inovação são: Observação, conhecimento e imaginação, elementos que fazem parte do ecossistema da inovação, assim como o pensamento lateral.

Como pode ver, o conceito do “possível adjacente” foi uma grande sacada do Stuart Kauffman, simples, esclarecedor e pode ser usado em um infinidade de campos de estudo.

Por exemplo em planejamento estratégico complexo, cada tática pode ser considerada um elemento adjacente, assim como as consequências de cada uma, formando em seguida o possível adjacente. Isto pode ser uma estratégia de negócios ou uma construção de políticas públicas. É uma estratégia comum no ambiente político.

O possível adjacente também torna mais fácil compreender o processo cognitivo, quando nosso cérebro insere novas informações nos esquemas mentais, combinando com os possíveis adjacentes que fazem parte do nosso repertório.

O possível adjacente é a síntese do processo científico, quando produzimos novos conhecimentos a partir dos conhecimentos adjacentes disponíveis (livros e artigos científicos), em conjunto com elementos adjacentes como observação e nossos esquemas mentais resultantes de outros conhecimentos adjacentes.

Por fim, o possível adjacente explica o grande mistério por trás da multiplicidade de boas ideias, quando invenções semelhantes surgem em diferentes partes do planeta, quase ao mesmo tempo. Pois muitos dos elementos e conhecimentos adjacentes estão disponíveis para diversas pessoas ao mesmo tempo.

Bilbiografia

BERKUN, S. The myths of innovation. [s.l.]: O’Reilly, 2007. 176 p. ISBN: 978-0-596-52-52705-1.

BONO, E. De. Lateral Thinking: Creativity Step by Step. [s.l.]: Harper Perennial, 2015. ISBN: 978-0060903251.

FERRER-I-CANCHO, R. Kauffman’s adjacent possible in word order evolution. [s.l.], p. 1–15, 2015.

JOHNSON, S. De onde vêm as boas idéias. [s.l.]: Zahar, 2010. ISBN: 978-85-378-0737-8.

KAUFFMAN, S. Humanity in a Creative Universe. [s.l.]: Oxford University Press, 2016. 313 p. ISBN: 978-0-19-939045-8.


João Carlos Rebello Caribé

Consultor em otimização empresarial, com foco em inovação estratégica, gestão do conhecimento, gestão de projetos e processos, e micropolítica corporativa. Professor em MBA em disciplinas das áreas de gestão Empresarial, Marketing, Logística e Recursos Humanos. Mestre em Ciência da Informação pela UFRJ (PPGCI) com o tema “Algoritmização das relações sociais, criação de crenças e construção da realidade”. Empreendedor desde o início de sua carreira, foi sócio em quatro empresas desde então. Com a chegada da Internet no Brasil no final dos anos 90, desenvolveu uma empresa revolucionária, a Flash Brasil, tornando-se referência com um modelo de negócios inovador envolvendo comunidades virtuais com milhares de profissionais. Foi conselheiro para o primeiro Conselho de Coordenação da NETmundial Initiative, junto com profissionais como Jack Ma (Alibaba), Christoph Steck (Telefonica), Penny Pritzker (Departamento de Estado Americano), James Poisant (WITSA), Lu Wei (Ministro do Ciberespaço Chinês), Jean-Jacques Subrenat (EURALO), dentre outros. Também foi membro do Comitê Executivo da NCUC na ICANN, representando a sociedade civil da América Latina e Caribe. Participa da Internet Society Brasil, Coalizão Direitos na Rede, Red Latam, Comunidade Diplo, Dynamic Coalition on Network Neutrality e Global Net Neutrality Coalition, Laboratório em Rede de Humanidades Digitais (LarHud) e Estudos Críticos em Informação, Tecnologia e Organização Social (Escritos).

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